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O ME U AMIGO ZÉ

   Rebuscando no meu baú da memória, vem-me ao pensamento aquela escada do segundo andar por cima do grémio com aquele cheiro a frutas tropicais. Ao chegar lá acima com o meu amigo Zé, fiquei admirado com as caixas de ananases, bananas, plátanos e outros frutos tropicais que enchiam o ar de um aroma muito agradável e que eu até então desconhecia. Para ajudar ao ambiente tropical a tia do Zé, tinha um macaquinho que se passeava nos ombros dela. Ao ver-nos, ficou muito agitado e mostrava-nos os seus dentinhos com ar ameaçador. Lá acalmou e acabámos por comer uma banana e uma rodela de ananás. O tio do Zé estava na marinha mercante e ia muitas vezes ao Brasil, e trazia frutas e outras coisas de lá. Não me senti acanhado ao aceitar aquele lanche, já que o Zé vinha frequentemente à minha casa e sempre que a minha mãe lhe perguntava se era servido, ele sempre respondia á primeira, “já que insiste” e sentava-se logo à mesa. Embora não lhe faltasse nada em casa, não resistia a uma refeição extra.
   Naqueles tempos, as nossas brincadeiras de miúdos, entre outras, era brincar com soldadinhos de chumbo, aos reis e cavaleiros da idade media e fazíamos castelos com caixas de sapatos. Como o Zé era mais velho do que eu quase dois anos, nos estudos andava dois anos mais adiantado, o que naquelas idades fazia muita diferença. Ao estudar história, matéria que lhe interessava muito, falava da revolução Francesa, da igualdade, liberdade, fraternidade e outras coisas que me pareciam fazer sentido. Ele falava com muita convicção e de certo modo, influencio-me.
   Numa certa altura começou a aprender a tocar a guitarra, ia á Barbearia do Zé Casimiro. Aí ganhou a confiança dos frequentadores da barbearia, já que lá cortava-se o cabelo, tocava-se a guitarra, mas também desabafavam as penas falando contra o regime, coisa que era muito perigosa e “muito má para a saúde ”dos atrevidos. O Zé não só ia aprendendo a tocar a guitarra como também, a odiar cada vez mais a “ PIDE ” e tudo que se relacionava com o regime de Salazar.
   Quando eu tinha 16 anos, o Zé e eu decidimos ir á boleia ao Algarve. Uns amigos tinham ido dois dias antes e ficámos de nos encontrar na praia de Faro. O Zé levava 100 escudos e eu 80. Levávamos mochilas com latas de sardinha, de atum, de salsichas e outras coisas. Apanhamos uma boleia para Setúbal, outra para Alcácer do Sal. Em Alcácer, sugeri que ficássemos na bomba de gasolina mas o Zé estava ansioso e impaciente, disse-lhe que ninguém pararia naquela recta de mais de 20 quilómetros, mas ele insistiu, e lá fomos. A partir da uma hora o sol era insuportável e as sombras eram poucas, cada dois ou três quilómetros parávamos, descansávamos e comíamos alguma coisa. A meio do caminho a nossa única oportunidade de boleia foi a do meu vizinho Pedro. Vi vir a camioneta dele, mas quando me aproximei da berma da estrada já não fui a tempo de lhe acenar. Continuámos aquela penosa caminhada e chegámos depois das seis a Grândola. Parámos na bomba de gasolina, estava um soldado à espera de uns senhores que lhe iam dar uma boleia até Loulé. Perguntámos aos senhores se nos podiam dar uma boleia e disseram-nos que só podiam levar mais um. Enquanto bebiam umas imperiais conseguimos que um casal francês desse boleia ao soldado. Eles iam para Faro, que era precisamente para onde o soldado queria ir. Assim conseguimos que os outros senhores nos levassem.
   Ao chegar a Loulé, descarregaram sacos cheios de moedas que era a “ colheita “ das balanças e outras máquinas que tinham em Lisboa. Como um deles seguia para a Quarteira, deu-nos boleia e deixou-nos ficar numa casinha para dormir. A casinha era fresca e o tecto estava forrado de cana, como a maioria das casas algarvias naquele tempo.
   No dia seguinte fomos à praia. À hora de almoço entrámos numa tasca que também tinha frutas, hortaliças e algumas mercearias. Pedimos meio pão e dois tomates, fizemos uma salada com atum. Quando acabámos de comer a dona da tasca disse que éramos estudantes e não nos cobrava nada. Ficámos encantados da vida e agradecemos muito.
    Um casal inglês, que viajavam num Land Rover com uma caravana, deu-nos uma boleia até Albufeira, quando chegamos, convidaram-nos a tomar chá e ofereceram-nos bolachas.
   Nessa noite dormimos na praia, mas antes o Zé decidiu lavar as peúgas e pô-las a secar encima de uma pedra. De manhã fomos acordados pelo barulho dos homens que vieram armar as barracas e os toldos. Tínhamos os ouvidos e nariz cheios de areia, mas tínhamos dormido bem. Quando o Zé foi buscar as peúgas, não estavam lá, e a pedra onde ele as tinha pousado não se via, a maré tinha subido e tinha levado as peúgas e as botas. Uma bota andava a boiar, a outra, os homens tinham-na visto meio enterrada na areia. Ficámos todo o dia na praia para dar tempo que as botas secassem.
   À tardinha, uma vez mais, comemos numa tasca. Albufeira naquele tempo era uma pequena vila. Tivemos sorte, o filho da dona da tasca ofereceu-nos dormir numa vacaria, não sem antes nos pedir desculpa por não ter coisa melhor. Nós agradecemos já que era muito melhor do que dormir na praia. Além disso a mãe não nos cobrou nada pelo jantar. Aquele mito de que os algarvios comem numa gaveta e quando tocam à porta, fecham a gaveta e dizem a quem chega: que pena acabámos de jantar mesmo agora: não nos pareceu verdadeiro já que connosco foram muito generosos.
   Às seis e tal da manhã o dono das vacas e um ajudante vieram ordenhá-las. Ofereceram-nos leite, estava morna e cremosa, o Zé disse, que não sabia que o leite acabado de ordenhar tivesse um gosto a torrado. Eu não tinha querido açúcar, ele tinha querido duas colheradas cheias. O ajudante tinha confundido o cartucho do açúcar amarelo com o cartucho da farinha torrada.
   Depois disto pusemo-nos a caminho em direcção a Faro, apanhámos uma boleia até uma aldeia cujo nome não me lembro. Encostámo-nos à parede de uma casinha tentando ficar à sombra, coisa difícil já que com o sol na vertical e as casas sem beirado era uma missão impossível. Passavam algumas carroças, camionetas muito poucas e carros muito menos. Abriu-se uma janela e uma mulher jovem perguntou: Menino Zezinho o que está aqui a fazer? Era uma moça que tinha trabalhado na casa dos pais do Zé e tinha voltado á terra dela. Ofereceu-nos água, e deu-nos alguma fruta para o caminho. Seguimos para Faro e nessa noite dormimos ao lado do cemitério. Mentalizamo-nos de que os mortos não faziam mal a ninguém e os vivos tinham medo de se chegar lá ao pé.
   No dia seguinte fomos para a praia, encontramos os nossos amigos. Contámo-nos uns aos outros as nossas experiências, fartamo-nos de rir e depois à noite fomos a um baile.
  Depois fomos em direcção a Monte gordo, estivemos em várias praias. O Zé quando estávamos numa daquelas praias perto de Vila real de Santo António, disse-me que podíamos alugar um bote, fingir que íamos à pesca e fugir para Marrocos. Eu disse-lhe que não tinha lógica fugir, eu tinha passaporte, a minha mãe tinha assinado a minha emancipação e eu podia sair de Portugal quando eu quisesse.
   Quando chegámos a Vila real eu fui a Ayamonte, naquele tempo ainda não havia ponte, fui de barco. Quando cheguei lá, parecia que tinha chegado a um oásis, havia palmeiras, havia sombras. Comprei duas pequenas navalhas, de volta ofereci uma ao Zé. A outra encontrei-a há dias quando andava a procura de fotografias, foi essa navalha que me deu a ideia de escrever estas linhas.
   Depois foi voltar de Este para Oeste. Fomos até a Praia da rocha, depois viemos em direcção norte pela costa alentejana. A nossa última boleia foi de Coina para a Moita, o senhor Carreira reconheceu-nos e parou. Lá nos metemos naquele ovo, que abria a porta pela frente, e parecíamos três astronautas numa cápsula a caminho da lua. Ao fim de vinte e tal dias e com 17 tostões no bolso estávamos de volta à Moita. Tínhamos batido o recorde, os outros dois grupos, tinham estado muito menos tempo e com muito mais dinheiro do que nós.
   Foi assunto de conversa entre amigos e com orgulho contávamos o que tinha sido aquela aventura.
   Depois veio o Outono, voltar aos estudos. O Zé morava numa casa ao lado da minha mas estávamos pouco tempo juntos, ele com o regime de poucas saídas, e os estudos e a sua guitarra. Eu com a liberdade que sempre tivera de entrar e sair sempre que me apetecia, ia ao cinema às quartas-feiras á noite, aos sábados e domingos. Ia aos bailes, tinha namorada, tinha uma “ agenda muito ocupada “ e pouco via o Zé embora fossemos vizinhos.
   Uma tarde fria quase noite, um amigo apareceu na minha casa e decidimos ir visitar o Zé. Ele estava numa casinha no quintal a engraxar um blusão preto de cabedal, disse-nos que tinha que o impermeabilizar bem para a viagem que ia fazer. Disse-nos que não aguentava mais a situação, tinha que ir-se embora, não se sentia útil queria ajudar para que as coisas em Portugal mudassem. Eu disse-lhe que entendia a sua revolta pois que quando eu ia a Espanha também não podia expressar a minha opinião também lá havia polícia secreta e usavam os mesmos métodos, na minha opinião, tinham estudado na mesma cartilha. Depois desta conversa, quando saímos o meu outro amigo e eu achámos que aquilo era uma zanga passageira, um desabafo.
   Algum tempo depois, tocaram à campainha, era uma empregada dos pais do Zé. Disse-me que fosse ao telefone depressa para atender uma chamada de Espanha. Corri e naqueles segundos vieram-me ao pensamento as conversas no Algarve e do dia em que ele estava a engraxar o blusão. Ao telefone, disseram-me que ele estava num hospital em Cádis, perguntei como é que ele estava e a pessoa disse-me que ele estava mal. Pela voz da pessoa percebi que era “pior que mal”. Disse à mãe do Zé o que me tinham dito, sem dar a entender os meus pressentimentos. A mãe pediu-me que fosse com eles, dado que eu falava espanhol e era amigo dele. Pediram ao senhor Macieira que nos levasse, já que o pai do Zé não estava em condições de conduzir. Depois de uma penosa viagem até Cádis. Fomos à casa do vice-cônsul de Portugal, entre meias palavras confirmaram que o Zé tinha falecido. Disseram-nos que tínhamos que reconhecer o corpo. O senhor Macieira e eu tivemos que ir ao cemitério, já passava das 10 da noite. Um empregado do cemitério estava a nossa espera. Chovia, fazia muito vento e estava escuro o que tornava o ambiente muito macabro. Eu já tinha dormido junto a um cemitério, mas desta vez tinha que entrar num, no meio da noite. Vieram ao meu pensamento todas as histórias da Ti Libania, sobre bruxas e lobisomens, e da história de um homem que tinha apostado com outro que se atrevia a entrar no cemitério à noite e que na manhã seguinte o encontraram morto. A capa dele estava presa às roseiras. Chegaram à conclusão que tinha morrido de um ataque ao coração com o susto. Do portão de entrada via-se ao fundo um clarão de luz que saia de uma porta. O senhor Macieira seguia o homem que levava na mão um candeeiro a petróleo que dava uma luz muito ténue, eu não via quase nada seguia atrás a silhueta do senhor Macieira procurando ir pelo meio do caminho, não fosse haver alguma rama de roseira, e que se agarra-se às minhas calças.
   Quando chegámos à porta da capela ao olhar para o caixão, vi a poupa do cabelo que eu bem conhecia, o Zé usava o cabelo curto mas tinha uma pequena poupa rebelde, não havia duvida, era ele.
   O homem do cemitério disse-me que tinha que retirar um rolo de papel e dois pequenos frascos que eram os documentos e as amostras dos produtos que tinham usado para a conservação do corpo e que tínhamos que entregar na fronteira. Aproximei-me ao caixão, o corpo tinha sido envolto com o que seria um lençol, e tinham enchido o caixão com serradura. Fiquei mais tranquilo ao ver a cara do meu amigo, atormentava-me a ideia de que estivesse desfigurado, mas estava como se estivesse a dormir em paz e sereno. Com receio e respeito enterrei a mão na serradura, consegui retirar as coisas, foi um momento muito difícil para mim.
   No dia seguinte antes de voltarmos a Portugal, fui ao hospital onde estavam os dois companheiros do Zé que tinham sido resgatados com vida. Um, era um rapaz da Moita, o outro, era salvo erro de Angola. Contaram-me que logo na primeira noite, veio uma grande tempestade, ficaram sem a vela do pequeno bote e sem um remo pelo que ficaram à deriva, à mercê do vento, das ondas e das correntes marítimas, e a bilha de água que levavam tinha-se partido com os tombos provocados pelas enormes ondas. O Zé avisou-os que não bebessem água do mar pois isso podia matá-los. Depois de vários dias e noites á deriva o Zé devia-se sentir bastante mal, ele às escondidas dos outros, bebia água salgada, dizia aos companheiros que tinha pena de dar um grande desgosto à família e tinha pena de não cumprir o seu sonho.
   O sonho dele era ajudar de qualquer forma a que Portugal fosse um país livre.

   Com estas poucas linhas, procurei abrir algumas páginas daquele livro fechado que está sobre a campa do meu amigo Zé.

     Isto é uma pequena mas sincera homenagem ao meu Grande Amigo
“José Manuel Penharanda Rego”
 
     Federico J. G. Sanchez

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