De onde eu venho não existem paredes. O que recordo é apenas a luz. E o mar. Ou, talvez, o ruído do mar. Recordo-me que era noite e havia uma passagem. Disseram-me: “Vem!”. Havia um corpo e eu entrei.
Caminhava de cabeça baixa. A minha pobre cabeça, o meu corpo. (O meu corpo?). Caminhava por dentro da noite ouvindo o mar. Disseram-me: “Aquele que dorme caminha”. Disseram-me que o sono é o lugar mais próximo da morte.
Sonhei com paisagens onde nunca estive. Alguém me instruía: “Dorme”. Alguém me soprava ao ouvido palavras demoradas. Não sei de onde vim. Cheguei de noite num corpo estranho. Olhei-me ao espelho e vi-me: a outra. Olhei em redor e reconheci os lugares do meu sonho. Depois disseram-me: “Dorme”.
Quando acordei apareceram vocês. Fizeram-me perguntas. Queriam saber de onde eu vinha. E eu disse: “De onde venho não existem paredes”. Foi o que eu disse. A mulher riu-se e eu vi que ela não tinha dentes. Então falei-vos da luz. E da noite, e da passagem da noite: “Havia um corpo eu entrei”.
A mulher já não se ria. Olhava para mim muito atenta, quase assustada. E tu também. Aquele ali quis saber o meu nome. Disse-lhe “Tive muitos”.»
“Mas deves ter tido algum de que tivesses gostado especialmente” – insistiu ele. Respondi-lhe: “todos temos vários nomes, mas, por uma razão ou outra, nem sempre nos recordamos deles”. E acrescentei: “Isso também não tem importância, porque não são os nomes que dizem quem somos nós. Não passam de meros letreiros. Olhem para nós, estamos a falar há uns bons momentos e nem sequer sabemos como nos chamamos…”.
O homem olhou-me como se me estivesse a ver pela primeira vez. Vi, nos seus olhos, um misto de espanto e de admiração. A minha atenção centrou-se de novo na mulher e voltámos à nossa conversa inicial. “Estava a olhar-me ao espelho, mas não reconheci a pessoa que me fitava do outro lado. Para mim, não passava de um corpo, com um rosto inexpressivo, igual a tantos outros com que nos cruzamos na rua, quando passamos uns pelos outros, apressados, cada um imerso nos seus pensamentos.”
À medida que ia falando, o silêncio, entre aqueles que me rodeavam, ia-se tornando cada vez mais pesado. Nunca pensei que o silêncio pudesse fazer tanto ruído. Mesmo assim, avancei: “Continuei a olhar e pensei…e se eu entrasse?”.
A mulher, que seguia atentamente cada uma das minhas palavras, disse: “Não precisas de responder. Estás aqui connosco, por isso já sabemos a decisão que tomaste. E agora? Que pensas fazer? Vais continuar aqui ou pensas em regressar?”
“Não sei” – respondi-lhe eu. “Preciso de pensar sobre isso antes de tomar uma decisão. Além disso, ainda agora cheguei e, quem sabe, pode haver algum motivo para eu estar aqui.” Só me dei conta que havia uma quarta pessoa, quando lhe ouvi a voz. Era um homem, um pouco mais velho que os outros três companheiros. Tinha um ar calmo, que inspirava tranquilidade, e falava pausadamente, como se estivesse muito cansado. Aproximou-se mais do lume, esfregou as mãos como se sentisse com frio, e disse: “Tens de te encontrar. Tens de percorrer o teu caminho, sozinha. Nisso, ninguém te pode ajudar. Apenas te podemos acompanhar nessa tua jornada. Há circunstâncias na vida em que nos podem ser exigidos grandes sacrifícios, que parecem estar acima das nossas forças. Nesses momentos, ninguém tem autoridade moral para nos dizer o que devemos ou não fazer. As escolhas têm de ser nossas”.Calei-me. Tinha consciência de que o que ele dizia era verdade. Mas será que era assim tão fácil? Será que bastava um estalar dos dedos para que tudo voltasse a ser como dantes? Naquele momento, só me apetecia viver das memórias dos tempos felizes, do tempo em que não existiam paredes e a vida sorria. “Não posso apagar o passado, mas não sei se terei forças para viver eternamente nele”, ouvi-me a mim própria responder.
O homem, que parecia distraído a encher o seu cachimbo, acendeu-o, aspirou lentamente e esperou que o odor do seu tabaco, ligeiramente agradável e suave, se espalhasse pelo ar, antes de responder: “Essa é a primeira grande lição que terás de aprender. Não podes ficar aqui eternamente, presa no tempo. Não podes parar o tempo, esse é o único bem que possuímos totalmente irrecuperável. Podes recordar o passado, mas não podes permanecer nele. É preciso que entendas que quem perde alguém que ama, perde muito, mesmo muito, mas que quem perde a coragem, perde tudo”.
Aos poucos, comecei a entender porque estava ali. Eu tinha perdido a coragem e precisava de reencontrá-la. Não podia continuar a enganar-me, a afivelar uma máscara para que os outros acreditassem ser esse o meu verdadeiro rosto, pois, quando me olho ao espelho, vejo a outra. Por isso não me reconheço. Caída a máscara, ficam apenas as feridas, o desespero e a angústia do presente. Sei que ainda não a encontrei, a coragem; mas agora sei onde a devo procurar. Basta olhar para dentro de mim. Ela está lá, algures, à espera que eu a vá buscar.
Laura Martins (16 de Setembro de 2009)
«De onde eu venho não existem paredes. O que recordo é apenas a luz. E o mar. Ou, talvez, o ruído do mar. Recordo-me que era de noite e havia uma passagem. Disseram-me: "Vem!". Havia um corpo e eu entrei.
Caminhava de cabeça baixa. A minha pobre cabeça, o meu corpo. (O meu corpo ?). Caminhava por dentro da noite, ouvindo o mar. Disseram-me: "Aquele que dorme caminha". Disseram-me que o sono é o lugar mais próximo da morte.
Sonhei com paisagens onde nunca estive. Alguém me instruía: "Dorme". Alguém me soprava ao ouvido palavras demoradas. Não sei de onde vim. Cheguei de noite num corpo estranho. Olhei-me ao espelho e vi-me: a outra. Olhei em redor e reconheci os lugares do meu sonho. Depois disseram-me: "Dorme".
Quando acordei apareceram vocês. Fizeram-me perguntas. Queriam saber de onde eu vinha. E eu disse: "De onde venho não existem paredes". Foi o que eu disse. A mulher riu-se e eu vi que ela não tinha dentes. Então falei-vos da luz. E da noite, e da passagem na noite: "Havia um corpo e eu entrei".
A mulher já não se ria. Olhava para mim muito atenta, quase assustada. E tu também. Aquele ali quis saber o meu nome. Disse-lhe "Tive muitos".
(...)
José Eduardo Agualusa, A Estação das Chuvas, págs. 229/230.
Sim, tive muitos. Chamei-me Sol e Sombra, Escuridão, Esperança, Comunhão, Amor, Desencanto, Solidão, Aventura, Sofreguidão.
Fui caminheiro errante dentro da noite escura de breu. Andei pelas escarpas, percorrendo a terra negra, pedregosa. Fui marinheiro, sulcando as águas revoltas com braçadas vigorosas, fortes, poderosas. Com elas alcancei a ilha dos amores. Perdi-me nela, estonteado. Deambulei pela floresta do contentamento. Ilusão breve! O perigo sempre espreita mostrando as suas garras do predador faminto. Então refugiei-me na gruta de mim mesmo. Enrolado em novelo de lã feito, procurei o fio que me mostrava a saída. Então voltei a ver a luz do sol brilhando à minha beira, ao lado, o rio cantava para mim e a natureza verde, sorria, acenando à brisa leve murmurando: Estou aqui. Então, respirei fundo e reflecti. Peguei na rosa de carmim e vi que nela a beleza não deixa de ter espinho e a dor que ele provoca é parte dela e de mim. Colhi-a, sorridente e, junto ao peito a coloquei, sorvendo o seu perfume. Então eu entendi que não há rosa sem pico nem ser sem tormento e frenesim. Olhar em frente, erguer-se do nada é o seu destino. Tombar e levantar-se o seu fadário. Ao fundo sempre espreita um caminho. Quem sabe uma mão me espera e um afago anseia por mim.
Maria Carvalho
30 de Outubro de 2009

Maria José Estiveira
De onde eu venho não existem paredes. O que recordo é apenas a luz. E o mar. Ou, talvez, o ruído do mar. Recordo-me que era de noite e havia uma passagem. Disseram-me: “Vem!”.
Acedi ao convite. Segui-os em silêncio. Mas, à medida que ia caminhando, o mistério adensava-se. No meu espírito formavam-se ondas de inquietação que tentava, em vão, fazer desaguar no areal da tranquilidade.
E uma dúvida permanecia. Porquê aquele convite para caminhar, de noite, rumo ao desconhecido? Mas não ousava fazer perguntas. Caminhava de cabeça baixa, entregue aos meus pensamentos. Aliás, seguia fielmente as regras que me tinham sido impostas. “Acompanha-nos! Não faças perguntas! Espera-te algo que irá talvez mudar para sempre a tua vida!”
Estas palavras tinham criado em mim um conjunto de sentimentos que se atropelavam e me deixavam nervosa e confusa. Sentia que algo de importante estava para acontecer. Não era uma simples brincadeira. Os seus rostos estavam demasiado sérios quando me pediram que os acompanhasse.
A noite, espaço privilegiado de meditação, acompanhava-me nesse momento de inquietação. A passagem era curta, talvez uns cem metros, não mais. Mas parecia-me demasiado longa, como longa tinha sido a minha curta vida de quinze anos. Que caminho tão sinuoso, tão difícil! Quantas vezes me tinha sentado, com o mundo desabar sobre mim, exausta, sem vontade de continuar. Mas, algo me impulsionava sempre para diante, continuando a fazer a minha caminhada, antevendo o glorioso dia em que o sofrimento fosse apenas uma página do meu passado que eu deixaria guardada na gaveta do esquecimento e que não abriria jamais.
Desembocámos no areal. Uma luz ténue aparecia reflectida no mar. Era a lua que marcava a sua presença, talvez para mostrar que, mesmo quando nos imaginamos em plena escuridão, uma luz nos acompanha e nos indica o caminho.
As ondas iam e vinham, num movimento contínuo, espraiando-se preguiçosamente na areia, indiferentes ao meu tumulto interior.
Mais adiante, estava uma cabana, de pescadores talvez. Os meus companheiros dirigiam-se para lá, num silêncio misterioso. Por que motivo tornavam mais dolorosa a minha caminhada? Queriam deixar-me livre para os meus pensamentos, ou esse silêncio era um sinal de apreensão face ao momento que nos esperava
Chegámos. Os meus companheiros bateram à porta. Uns breves momentos bastaram para que a velha porta de madeira se abrisse e, por detrás dela, um rosto feminino de uma adolescente se revelasse com um sorriso tímido.
Aquele sorriso, aquele olhar profundo, aqueles cabelos louros, eram-me familiares. Era a minha imagem que eu via reflectida, como se por detrás da velha porta existisse um enorme espelho.
Afinal ela existia na realidade, não era um simples fruto da minha imaginação.
Isabel Raminhos – Novembro de 2009
«De onde eu venho não existem paredes. O que recordo é apenas a luz. E o mar. Ou, talvez, o ruído do mar. Recordo-me que era de noite e havia uma passagem. Disseram-me: "Vem!". Havia um corpo e eu entrei.
Caminhava de cabeça baixa. A minha pobre cabeça, o meu corpo. (O meu corpo ?). Caminhava por dentro da noite, ouvindo o mar. Disseram-me: "Aquele que dorme caminha". Disseram-me que o sono é o lugar mais próximo da morte.
Sonhei com paisagens onde nunca estive. Alguém me instruía: "Dorme". Alguém me soprava ao ouvido palavras demoradas. Não sei de onde vim. Cheguei de noite num corpo estranho. Olhei-me ao espelho e vi-me: a outra. Olhei em redor e reconheci os lugares do meu sonho. Depois disseram-me: "Dorme".
Quando acordei apareceram vocês. Fizeram-me perguntas. Queriam saber de onde eu vinha. E eu disse: "De onde venho não existem paredes". Foi o que eu disse. A mulher riu-se e eu vi que ela não tinha dentes. Então falei-vos da luz. E da noite, e da passagem na noite: "Havia um corpo e eu entrei".
A mulher já não se ria. Olhava para mim muito atenta, quase assustada. E tu também. Aquele ali quis saber o meu nome. Disse-lhe "Tive muitos".
(...)
José Eduardo Agualusa, A Estação das Chuvas, págs. 229/230.
De onde eu venho não existem paredes. Nem corpos. Paredes e corpos, pela sua materialidade, criam barreiras à ascensão do eu. De onde eu venho, a luz, projectada no mar, abre brechas na noite, verdadeiros sulcos incandescentes que projectam seres incorpóreos para universos de sonho. Arremessei-me para dentro da noite, ouvindo o mar e movendo-me em direcção à luz, Sentia-me amparada pela cadência melodiosa da voz “Vem, segue-me,” “Dorme”, Cavalguei pela luz, vi paisagens de sonho, cruzei-me com cavalos alados de crinas incandescentes, mergulhei em lagos iluminados por estrelas cadentes, percorri galáxias coloridas, ouvindo sempre a mesma voz: “vem, segue-me”. De repente vi-me encarcerada num corpo, preso dentro de outro corpo. Sinto que brevemente sairei deste espaço escuro mas nada será como antes. Sinto-me limitada pelo meu próprio corpo, os meus movimentos são tolhidos pelo corpo que me envolve. De onde eu venho não existem paredes. Nem corpos. Não posso agora correr pelos sulcos das estrelas mas acalmo-me porque sinto-me amparada pela voz que me diz: Dorme” e que agora me canta canções de embalar.
Ana Maria Lucas
«De onde eu venho não existem paredes. O que recordo é apenas a luz. E o mar. Ou, talvez, o ruído do mar. Recordo-me que era de noite e havia uma passagem. Disseram-me: "Vem!". Havia um corpo e eu entrei.
Caminhava de cabeça baixa. A minha pobre cabeça, o meu corpo. (O meu corpo ?). Caminhava por dentro da noite, ouvindo o mar. Disseram-me: "Aquele que dorme caminha". Disseram-me que o sono é o lugar mais próximo da morte.
Sonhei com paisagens onde nunca estive. Alguém me instruía: "Dorme". Alguém me soprava ao ouvido palavras demoradas. Não sei de onde vim. Cheguei de noite num corpo estranho. Olhei-me ao espelho e vi-me: a outra. Olhei em redor e reconheci os lugares do meu sonho. Depois disseram-me: "Dorme".
Quando acordei apareceram vocês. Fizeram-me perguntas. Queriam saber de onde eu vinha. E eu disse: "De onde venho não existem paredes". Foi o que eu disse. A mulher riu-se e eu vi que ela não tinha dentes. Então falei-vos da luz. E da noite, e da passagem na noite: "Havia um corpo e eu entrei".
A mulher já não se ria. Olhava para mim muito atenta, quase assustada. E tu também. Aquele ali quis saber o meu nome. Disse-lhe "Tive muitos".
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José Eduardo Agualusa, A Estação das Chuvas, págs. 229/230.
“De onde venho, não existem paredes”, diz o enunciador.
De onde ele vem e vimos todos nós. Na origem, filhos de um Universo eterno, sem medida nem tempo, conceitos meramente humanos, por isso atarracados aos limites das nossas experiências, tradições e, sobretudo, capacidade de saber. Depois, cada unidade humana experimenta essa ausência de tempo e espaço e, por tabela, a ausência de paredes, mesmo apertada e aperreada ao limite possível, no ventre que lhe concedeu guarida, antes de aceder à luz e à consciência, pelo menos aquelas que testamos.
José Agualusa, quando refere a ausência de paredes, transporta-nos às imensas chanas angolanas, em flagrante contraste com o carcerário urbanismo que aprisiona e tolhe o homem da Europa. Apesar disso, é bom reter que as paredes aprisionam mas também protegem; tudo depende da circunstância.
Gonçalo Rego
«De onde eu venho não existem paredes. O que recordo é apenas a luz. E o mar. Ou, talvez, o ruído do mar. Recordo-me que era de noite e havia uma passagem. Disseram-me: "Vem!". Havia um corpo e eu entrei.
Caminhava de cabeça baixa. A minha pobre cabeça, o meu corpo. (O meu corpo ?). Caminhava por dentro da noite, ouvindo o mar. Disseram-me: "Aquele que dorme caminha". Disseram-me que o sono é o lugar mais próximo da morte.
Sonhei com paisagens onde nunca estive. Alguém me instruía: "Dorme". Alguém me soprava ao ouvido palavras demoradas. Não sei de onde vim. Cheguei de noite num corpo estranho. Olhei-me ao espelho e vi-me: a outra. Olhei em redor e reconheci os lugares do meu sonho. Depois disseram-me: "Dorme".
Quando acordei apareceram vocês. Fizeram-me perguntas. Queriam saber de onde eu vinha. E eu disse: "De onde venho não existem paredes". Foi o que eu disse. A mulher riu-se e eu vi que ela não tinha dentes. Então falei-vos da luz. E da noite, e da passagem na noite: "Havia um corpo e eu entrei".
A mulher já não se ria. Olhava para mim muito atenta, quase assustada. E tu também. Aquele ali quis saber o meu nome. Disse-lhe "Tive muitos".
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José Eduardo Agualusa, A Estação das Chuvas, págs. 229/230.
O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O
ENTÃO MAS AFINAL …
Será assim o nascer?
- vir de um particular mar interior e escuro, lugar sem paredes, ocorrer a um chamamento e seguir a luz até desembocar num exterior, a que chamamos mundo, mais amplo e povoado, mais partilhado e barulhento, cumprindo um imperativo biológico, iniciando um novo ciclo daquilo a que chamamos vida –
é bem possível.
Concordar ou discordar será uma questão de fé ou crença, exercício de pura especulação por se tratar de uma experiência ocorrida antes de sabermos as palavras que permitem ilustrar e lidar com as ideias e organizar o seu registo gráfico a que chamamos memória. Acredito, contudo, subsista um imemorial registo desse primordial percurso que para sempre nos acompanhará, matriz de uma indefinida saudade que, debalde os nossos esforços, procuraremos preencher sem sucesso.
Essa busca impulsiona-nos a caminhar em sucessivas e ininterruptas etapas.
Efectivamente, caminhamos desde que nos conhecemos (e mesmo antes de nos conhecermos), neste corpo que não escolhemos, antes nos acolheu.
Estamos algures entre o nascer e o momento de des-nascer para, quem sabe, tornar a re-nascer talvez sobre outras formas e noutros estados. Esse intervalo é o que chamamos vida, a nossa vida.
Tanto caminhar – que às vezes cansa e desanima – é sem remédio nem remissão. Não pode deixar de ser assim, é compulsivo e independente da nossa vontade.
Na companhia da plêiade que nos habita (somos todos tantos, não somos?!) e que tantas vezes não conseguimos domesticar, percorremos os caminhos socorrendo-nos do que calha para nos orientar e, outras vezes, mesmo sem orientação alguma, tacteando como cegos, avançamos tentando decifrar os sinais.
Olhamos as estrelas e os planetas, olhamos a imensa abóbada rutilante e aspiramos o cheiro da terra. Ouvimos o som da água e das marés – escutamos búzios ao ouvido - aspiramos a maresia e o grito das aves do mar. Escutamos, também, o silêncio e as suas metamorfoses. Ora insuportavelmente ruidoso, agitando-nos, ora o grande silêncio que extasia.
Nessa caminhada, crescemos com o que vamos descobrindo. Cores e sons, paladares, aromas, sentimentos que germinam em sonhos, amores … paixões.
No eterno discorrer, procura cada um realizar o que lhe cabe, cumprir o seu destino. Paramos nas muitas encruzilhadas. Paramos e tentamos interpretar, conjugar e harmonizar os ecos, os ruídos e as vozes. As de dentro e as do mundo. A do outro, as dos outros. Escutamos e tentamos perceber o nosso lugar e o passo a seguir, o onde e o quando, o por e o para, o sentido do porquê.
Interrogamo-nos.
Bem, não é só crescer … por vezes também minguamos. Nem tudo são festas e rosas e sons celestiais. Há a dor, as dores. Acontecimentos, situações que ferem. Discórdias, desigualdades, não as de forma que enriquecem, antes as de substância, sociais, que estruturam e determinam o sentido da “ordem”. Injustiças, ódios, guerras, … no limite. Tarda-se, teima-se em reconhecer e aceitar a diferença. Porque há princípios e há valores. Há o SERVIR. Mas há também interesses e imposturas, e os vícios e os viciados. Há o SERVIR-SE.
Surge às vezes a solidão e o medo. Solidão desamparada, medo visceral e instintivo.
Pois, o sono toma o lugar do sonho.
Dúvidas, incertezas, desorientação, algum desalento e,… a busca.
A mecânica continua e ser misteriosa. Perde e reganha magia. A música oscila, varia. Perdem-se instrumentos, calam-se outros que entravam na composição do som e o temperavam mas surpreendentemente outros surgem de onde menos e quando nada se esperava e reverbera o som noutras tonalidades que dilatam a alma.
E escutamos de novo e sempre, e tentamos perceber porque sentimos (e só depois sabemos) que a mecânica da vida se altera, muda, e que, todos nós, fomos, somos, seremos, arquitectos e construtores nessa mudança.
Chega um poeta e solta o seu verso cantado
“Que caminho tão longo, que viagem tão comprida, que deserto tão grande, sem fronteira nem medida. Águas do pensamento, vinde regar o sustento da minha vida …”
É claro, gostaríamos ter a arte de sempre cruzar os caminhos interpretando uma declaração de amor. Amor por tudo, por todas as coisas, por todos os seres vivos e inanimados. Amor universal, completo e pleno.
Mas apesar de sentirmos – na convicção e instinto – ser essa a única atitude orientada no sentido do que todos buscamos, nem sempre é possível, pois não? Não porque o não queiramos, antes porque o não podemos, porque o não sabemos.
E não se pode soçobrar. Não se pode dizer agora não, agora “passo”, agora …espera.
Não se pode ????
Não! No universo das ideias/emoções a vida é sempre a andar. Sem intervalos nem esperas, sem ausências.
As ideias/emoções cavalgam-nos, ultrapassam-nos e arrastam-nos para o abismo ou a redenção.
Eu, outro dia, olhei os olhos de um cão e sentei-me numa pedra. Como todos sabeis, olhar os olhos de um cão tomando uma pedra como assento, são algumas das inúmeras formas possíveis de se caminhar. E fui feliz ali, assim. Como o cão penso ter-me sentido cão. Terei sido, portanto, cão naquele momento. Como a pedra senti-me pedra tendo sido também pedra então. Árvore já me senti várias vezes, é recorrente em mim. E, é claro que me senti bem com isso senão nem sequer estava a contar. Posso, devo, pois concluir que sentir-se cão, pedra ou árvore é uma das muitas formas de se ser gente.
Então mas afinal …
Sim. Havia um tempo sem desconfiança e sem juízo.
Perguntava-se - em plano aberto, sem disfarces ou canais codificados - para aprender e descobrir e crescer com isso. Não para julgar ou classificar. Talvez por isso, ria-se mais e o riso, era cristalino e sem rugas.
Sim, havia um tempo de clara e luminosa ingenuidade, de total ausência de perversidade e onde a maldade, de facto, não compensava.
Era no tempo em que … bem,
(…) O que recordo é apenas a luz. E o mar. Ou, talvez, o ruído do mar. Recordo-me que era de noite e havia uma passagem. Disseram-me: "Vem!". Havia um corpo e eu entrei. (…)
Então mas afinal … a busca continua.
Manuel João
Outubro/Novembro 2009