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Obra em análise

 

 

Responsável - Isabel Raminhos

CONTACTO

V_Ferreira
Saramago
sandor

«De onde eu venho não existem paredes. O que recordo é apenas a luz. E o mar. Ou, talvez, o ruído do mar. Recordo-me que era de noite e havia uma passagem. Disseram-me: "Vem!". Havia um corpo e eu entrei.
Caminhava de cabeça baixa. A minha pobre cabeça, o meu corpo. (O meu corpo ?). Caminhava por dentro da noite, ouvindo o mar. Disseram-me: "Aquele que dorme caminha". Disseram-me que o sono é o lugar mais próximo da morte.
Sonhei com paisagens onde nunca estive. Alguém me instruía: "Dorme". Alguém me soprava ao ouvido palavras demoradas. Não sei de onde vim. Cheguei de noite num corpo estranho. Olhei-me ao espelho e vi-me: a outra. Olhei em redor e reconheci os lugares do meu sonho. Depois disseram-me: "Dorme".
Quando acordei apareceram vocês. Fizeram-me perguntas. Queriam saber de onde eu vinha. E eu disse: "De onde venho não existem paredes". Foi o que eu disse. A mulher riu-se e eu vi que ela não tinha dentes. Então falei-vos da luz. E da noite, e da passagem na noite: "Havia um corpo e eu entrei".
A mulher já não se ria. Olhava para mim muito atenta, quase assustada. E tu também. Aquele ali quis saber o meu nome. Disse-lhe "Tive muitos".
   (...)

José Eduardo Agualusa, A Estação das Chuvas, págs. 229/230.

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Em Nome da Terra
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