Travo a Pormenor
João Mãozinhas
chegou ao Bar "Alvo Certo" como já era habitual. Um homem tem de ter
hábitos para se encontrar. No caso de João Mãozinhas não se podia dar ao luxo
de ter muitos hábitos, coisas da vida. Mas este ele não dispensava: o seu
pequeno-almoço era sagrado assim como todos os rituais que o compunham. Reza a
história que o único homem que se atreveu a interromper o dito pequeno-almoço
foi o Zarolho, seu companheiro de profissão que o confundiu com a sua avó
Marcelina. Teve sorte porque o Mãozinhas ainda não estava a apreciar o seu
galão (por acaso muito quente), nem a saborear as suas torradas. Resta
acrescentar que o menu só estava completo após a ingestão de um bagacinho
duplo.
João Mãozinhas,
começava assim o seu dia, antes de ir trabalhar. Mãozinhas era um ladrão
profissional, reconhecido internacionalmente, por todos aqueles que soubessem
da existência de Barbacena, capital portuguesa do Roubo e Contrabando. Todos os
profissionais do ramo dignos de reconhecimento pelas polícias variadas, tinham
o maior culto por esta filha de Lisboa.
Esse seu hábito,
começara há muitos anos atrás. Nesse tempo João Mãozinhas ainda não havia
enredado pelas malhas da sua profissão. Era ainda um jovem como todos os
outros, que gostava de ouvir Beatles, Quarteto 2001 e que namorava ao som de
Madalena Iglésias. Nesse tempo, João (ainda não Mãozinhas), era o alvo das
atenções de todas as garotas do bairro. No entanto, ele só tinha olhos para
aquela que não lhe correspondia: Mila. Mila, era uma miúda lá do bairro, que
vivia mesmo ao lado do café Alvo Certo. Todos os dias, Mila tomava aí seu
pequeno-almoço: um galão e uma torrada. Sentada na mesa do canto, junto à
janela. Todos os dias o João observava a sua maneira de segurar no copo, de
pagar na torrada, o seu olhar distante, enquanto imaginava o dia em que
tomariam juntos o pequeno-almoço. Mas só sonhava. Muitas vezes tentava falar
com ela na escola, mas no momento H, a voz fugia da garganta e o corpo ficava
sem ossos. Era horrível! Logo ele, o macho latino do Liceu, sem conseguir
dirigir a palavra a uma miúda, que até nem era muito gira, mas que tinha um
"não sei o quê" que o intimidava. Começava a desesperar, sem entender
a razão do seu problema.
Até que um dia
ganhou coragem. Não sabe onde, mas arranjou. Afinal a miúda não era um dragão.
Parecia até ser bastante simpática. Enfim, engoliu em seco e atirou um
"olá, tudo bem?" como quem entra na jaula dos leões. Ela
respondeu-lhe com um sorriso e disse "Tudo e Tu?". Naquele momento o
mundo parou de girar, tudo, tudo parou para o João. "Sim, está tudo."
Foi o que lhe escapou da garganta. Mas a conversa parou por aí, porque a aula
estava a começar.
Nesse dia nada mais
aconteceu. Nem nos próximos que lhe seguiram. Tempos depois, houve uma festa na
garagem. João foi, como era hábito. Enquanto bebia uma cerveja e conversava com
o "Tripas" (o tipo mais magro dos arredores), por cima do ombro do
amigo avistou Mila. Cada vez ela lhe parecia mais bonita. Mas naquela noite, a
miúda estava mesmo gira. Tão gira que João deixou cair o copo de cerveja. No
meio da confusão, perdera-a de vista. O amigo, já recomposto, perguntava-lhe de
quem estava ele à procura. João não ouvia nada, só podia ter sido uma visão, um
sonho, pensava. Só com um milagre eu a voltava a encontrar esta noite. Nessa
noite o milagre aconteceu. Começaram os slows. João ficou sentado por
opção. Depois de duas músicas, levantou-se para ir respirar ar fresco. Não lhe
apetecia dançar sem ser com ela. Qual não foi seu espanto, quando a viu,
sentada num canto da garagem, com um copo de laranjada na mão.
- Olá, tudo bem?
Bem que podia ter
dito outra coisa, mas quando fala o coração, a cabeça fica calada.
-Está, obrigado. E
contigo?
Pelo menos, ela foi
mais imaginativa. Aqueles olhos desconcentravam-no. Nunca ninguém o olhara
daquela maneira. O que é que ela tinha de tão especial?
-Tudo bem. Vou
apanhar um pouco de ar fresco. Aqui está um bocado abafado, não achas? Queres
vir?
Burro,
burro pensou. Devia antes convidá-la para dançar. Ela mal me conhece, não vai
aceitar.
-Boa
ideia, estava a pensar em fazer o mesmo. Assim não vou sozinha.
João não se sentou
porque, enfim, as pernas não se vergaram. Estaria ele a sonhar ou já teria
bebido cerveja a mais?
A noite era de
Verão, quente, com aroma a maresia. O céu estava limpo, com nódoas de estrelas.
Sentaram-se na muralha do cais. Sabia bem ouvir as ondas do mar.
-Já
viste que ainda não me disseste o teu nome? - João não sabia bem o que dizer ou
o que fazer. O seu coração parecia o motor de um foguetão, nos momentos antes
da descolagem.
-Não
me perguntaste, porque já sabias, não é verdade João? - Mila ao rir-se, brincava com os cabelos. A luz da Lua,
dava-lhe uma cor mágica nas faces. Parecia uma fada, uma feiticeira.
-Não
sabia que sabias tanto sobre mim! - João riu-se. Parecia-lhe que já a conhecia
muito bem, há muito tempo. Devia ser da luz da Lua.
-Afinal,
somos vizinhos, moramos na mesma rua, andamos na mesma escola, na mesma turma.
Pelo menos o nome!
-Mas
nunca tínhamos estado assim, a falar.
João,
já não sabia bem o que dizer. Aquela miúda estava a levá-lo a um jogo, no qual
ele era mestre, com jogadas para ele desconhecidas. Era um jogo perigoso,
arrepiante, mas que ele desejava prosseguir.
-Nunca
entendi porque é que falavas com as outras raparigas e nunca me dirigias
palavra. - Mila olhou-o nos olhos, esperando uma resposta.
Para
João, nesse momento, se houvesse um buraquinho no chão ele escondia-se nele.
Ela havia feito xeque-mate e ali estava ele, entre a espada e a parede,
sem saber o que dizer.
-Parecia
que não gostavas de mim. Também nunca me falavas - disse, encolhendo os ombros.
-O
que é que te levou a pensar que eu não gostava de ti? - Mila levantou-se e
olhou para o mar - ou melhor, o que é que te levou a falar comigo, já pensaste que
eu não gostava de ti?
João
ficou sem palavras. Aquela miúda enfeitiçava-o com os olhos, e chicoteava-o com
palavras. Melhor, acorrentava-o. Ele já não sabia o que dizer. Uma palavra em
falso e seria a morte do artista. Respirou fundo e disse:
-È
sempre bom fazer novos amigos, ouvir outras opiniões, conselhos... Não vi razão
para não podermos ser amigos. Só se tu não quiseres, está claro! És livre de
decidir. Apesar de eu gostar de saber porquê.
Agora
era ela que não podia escapar - Bem feita, (pensou) julgava que me podia tomar.
-Nunca
disse que não queria ser tua amiga, pois não?
De
repente começou a fazer vento. Um vento frio, vindo do mar. O que é que São
Pedro estaria a tramar? O que é que fosse, deu jeito a João que já não sabia
continuar a conversa.
-È
melhor ir para dentro. Está a ficar frio. Vamos?
-Está
bem.
Lá
dentro, os slows continuavam.
-Queres
dançar? - perguntou João.
-Porque
não? - respondeu-lhe ela, com um brilho nos seus olhos de gato.
Ao
som da música, tudo o resto desaparecera. Só ele e ela, ali juntinhos, movendo
o corpo ao ritmo do amor. Parecia-lhe um sonho, uma ilusão, o Paraíso. Ao
tocar-lhe os cabelos curtos e ondulados, parecia que tinha entre mãos
finíssimos fios de ouro, escurecidos pelo tempo. O contacto das mãos dela no
seu corpo, provocavam-lhe arrepios e suores frios. Mas como era bom estar ali
com ela! Meu Deus, como lhe apetecia beijá-la, levá-la para bem longe dali e
dizer-lhe tudo o que sentia. Talvez ela confessasse que sentia o mesmo por ele,
que era a sua alma gémea.
Após
saírem da festa, foi levá-la até à porta de casa.
-Bem,
até amanhã.
-Até
amanhã.
Aquele
beijo de despedida, por muito inocente, alimentou durante toda a noite, os
sonhos e as ilusões do João. Como seria bom se o sonho fosse realidade.
No
dia seguinte, um velho sonho tornou-se realidade: Tomaram o pequeno-almoço
juntos. João aprendeu todos aqueles rituais meticulosos que nunca mais viria a
esquecer. Foi o pequeno-almoço mágico da sua vida.
Este
foi o início de uma relação mágica que marcou profundamente a vida do João.
Marcou e transformou por completo a vida do João. Durante três anos, João viveu
um sonho, levitou e amou e sofreu. A razão do seu sofrimento foi um mal
entendido, um erro humano e compreensível, mas nunca esclarecido. Como todos os
amores, a vida coloca obstáculos ara provar a sua resistência.
E
este amor não resistiu.
Seria
muito triste relatar como acabou esta história de amor. Acabou como muitas
outras. Quem já se apaixonou perdidamente e perdeu esse amor sabe bem do que
falo. E como dói.
João,
perante aquela angústia e dor procurou uma dor maior, um sabor mais amargo para
se esquecer do passado. È certo que é um erro mas quem já não chorou, quem já
não se fechou na sua concha com medo de mais sofrer? João encontrou um sabor
mais amargo no bagaço. E o bagaço amargou-lhe a vida. Deixara a escola e
começara a trabalhar numa loja qualquer. Tal como quando andava de mota a altas
velocidades, queria chegar mais longe, voar, ser livre. Não queria estar preso
a nada, nem ao emprego, nem a escritório, nem a horários, a nada. Esta bola de
neve levou-o ao sub-mundo, ao mundo obscuro do crime. Especializou-se em
cofres. Até tirou um curso de Informática e outro de Electrónica para deslindar
os códigos. E era o maior! Todos lhe tinham respeito. O João era o Sr. João
Mãozinhas, mestre das jovens gerações e figura de renome, nas vielas escuras de
Lisboa. Vivia confortavelmente, rodeado de luxos e de mulheres. Amor não, é
muito caro, no submundo da vida lisboeta!
Porque
esta história se finde é necessário esclarecer qual a razão de tal
pequeno-almoço. Anos atrás, João procurava fugir à Polícia após de um golpe mal
sucedido. A bófia apareceu na hora errada, no local errado. João correu
o mais que pôde e não pôde pela rua abaixo, até ao cruzamento. Para sua sorte
estava um automóvel parado nos sinais. Sem pensar duas vezes, entrou no carro e
apontando uma arma ordenou: "Arranca já!". Só momentos mais tarde,
viu quem ia a seu lado. Era nada mais nada menos do que seu grande amor - Mila.
A Polícia continuava a persegui-los a alta velocidade. Durante a perseguição,
que durou meia hora, conseguiram compreender que desde que se separaram tinham
sido infelizes devido a um maldito pormenor, que os fez brigarem. Maldito
pormenor. A polícia começou a disparar.
-Mila,
é melhor parares. Eu rendo-me.
-Não.
Podemos escapar. Eu conheço bem a estrada. Vamos fugir daqui, desta vida...
Enquanto
falava com um sorriso nos lábios e os olhos brilhantes, Mila desenhava mil e um
destinos. Enquanto sorria uma bala assassina atravessou-lhe o vidro traseiro. O
carro bateu num muro.
-Mila
não morras! Agora não! Não fugas de mim! Mila - chorava baixinho.
-João,
nunca me esqueci de ti. Por favor - sussurrou - não te esqueças de mim.
Aproveita da vida todos os segundos. Os grandes momentos são feitos de
pormenores - a sua voz começava a fugir.
-Mila,
fica comigo - João não sabia o que fazer.
-Adeus
João. Foge, foge - Foram as suas últimas palavras, fugindo à vida, à noite e à
chuva que começava a cair.
Agora
se compreende a razão pela qual esse homem tinha tanto cuidado ao tomar o
pequeno-almoço, lembrança de tempos felizes com um travo forte à realidade dura
e cruel da vida.
O
que é senão a vida senão uma sequência de pormenores?
RR
Novembro 2009