O Sonho
Nuno Zézinho era um vulgar inspector
da P.J. Alto, calvo e com uma "barriguinha de cerveja", ele era o
protótipo do quarentão engatatão, convencido que todas as miúdas lhe caíam aos pés. O problema é que caiu tanto, que se colou ao
seu pé durante 15 longos anos, trazendo como brinde uma mãezinha, bisbilhoteira
que assentou arraiais no minúsculo apartamento! Quinze anos a
aturar uma sogra espanhola que deixava envergonhada qualquer vendedora
da Praça da Ribeira! Verdade seja dita que a Carmenzita não ficava nada
atrás da mãe! Era demais para um pobre diabo português ter de aturar uma dose
dupla destes "rebuçados de Badajoz".
Para salvar este pobre diabo apareceu
uma Padeira de Aljubarrota de seu nome Júlia, algarvia de sangue quente,
que consolou o nosso pobre inspector. Sabia o que ele estava a sofrer visto
também ela estar casada com um nuestro hermano de nome Juan Manuel,
contrabandista de profissão. Também ela sofria na pele e na alma a visita da
sua adorada sogra e dos seus comentários. Assim se consolaram durante sete
longos e memoráveis anos por entre desculpas de trabalhos, enfartes de tias de
Trás-os-Montes, (Júlia tinha de se desculpar a Juan!).
Mas um dia o esquema veio abaixo! Carmenzita,
pensando que fazia uma agradável surpresa a su hombre, visitando-o no
seu posto, teve uma desagradável surpresa porque descobriu que o marido estava
a especializar-se em touradas e muito em especial a espetar pares de
bandarilhas durante o fim-de-semana e em horas extras! Descobriu-os num
apartamento espiando os ladrões de jóias, que viviam no apartamento em frente.
O que Carmenzita nunca conseguiu entender foi a razão de ambos estarem
nus! Seria uma nova técnica de investigação? Seria para despistar os ladrões?
Após muito a Carmenzita pensar e ocorrer uma tentativa de homicídio por
estrangulamento por parte desta, Nuno Zézinho, sabendo que a sua sogra
pertencera à Legião Estrangeira, decidiu que o melhor seria habitar a
autocaravana!
Aqui estava o nosso inspector, após 15
anos de matrimónio - 7 dos quais em dose dupla -
sozinho no mundo, sem rebuçados de Badajoz ou Padeiras de Aljubarrota.
Olhou-se no espelho e passou a mão pela barba. Tinha de se conformar: estava
velho. Já não era aquele jovem de vinte e poucos anos, cheio de sonhos e
ilusões. Passou a mão pelo o que restava do seu cabelo e bebeu uma mistela que
não merecia o nome de café. Pensou então o que tinha sido a sua vida e tentou
recordar-se quais os seus sonhos aos vinte e poucos anos.
Há vinte anos atrás, Nuno Zézinho era
um jovem agente da P.J., alto, cabelo preto, olhos azuis, elegante, ele era o
protótipo do jovem engatatão. À sua frente o futuro apresentava-se risonho,
devido aos sonhos que tinha: queria ser dono de um bar ou de uma discoteca.
Sinceramente, este homem não devia ser agente da P.J., devia ser músico,
cantor, compositor ou outra qualquer profissão relacionada com o mundo da
música. Enquanto vivia com os pais, os pobres vizinhos compravam algodão para
atenuar o som proveniente daquele andar. Até os próprios pais o tentavam convencer
que era altura de "sair do ninho e aprender a voar". Tudo em vão.
Nuno Zézinho era um jovem na moda, com montes de amigos, super popular mas com
um enorme defeito (ou virtude, na perspectiva dos mais cautelosos): tinha medo
de arriscar de experimentar a "voar fora dos limites da certeza"!
Foi devido a esse medo que não
concretizou o seu grande sonho.
A noite era de Inverno. O vento e o
mar confrontavam-se como dois gigantes por um lugar na alma, gritando cada vez
mais alto e invadindo o coração com um sopro gélido e aterrador. Os barcos não
se atreviam a desafiar a fúria do mar, porque sabiam de antemão a sorte que
lhes estava reservada. No enorme casarão no cimo da arriba, vinte DJ's, faziam
os seus testes para se candidatarem a um lugar na nova discoteca. Após o
décimo-nono apresentar o seu trabalho, esperou-se em vão pelo vigésimo. O
gerente da discoteca até tinha gostado da fita da pré-selecção e apostava
imenso no seu talento. O seu nome era Nuno Zézinho e só não foi DJ da
discoteca, porque o seu medo de ser rejeitado, de se "quebrar todo"
foi maior do que a sua coragem.
Vinte anos mais tarde, encontra uma
velha cassete com uma gravação e uma etiqueta:"nº 20". Um sorriso
aflora-lhe os lábios: "talvez nem tudo esteja perdido" - pensa. Chega ao escritório e põe a aparelhagem no máximo.
Todos olham para ele com o ar mais aterrorizado deste mundo.
- É esta a história do nosso paciente.
Foi o excesso de trabalho e a pressão da sua vida privada. Ele agora vive num
mundo só dele e já nem reconhecia ninguém-.
Foi esta a última vez que o director
do Júlio de Matos explicou aos estagiários, o efeito do stress, sobre o
comportamento humano.
E o sonho?...
RR
Novembro2009