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Junto ao Coreto

 

Junho soalheiro, dia pingando suor, noite abafando a mente, deixando os corpos ávidos de cerveja refrescante e o prazer de uma conversa sob o toldo de caniços feito e alguma serapilheira, junto ao “Café da Júlia”, local etéreo de encontro de jovens, médios e velhos sabedores da vida, alguns pensadores ou, simplesmente, alguém que apaga a solidão do dia numa amena cavaqueira.

Da casa térrea, antiga, lembrando outras azáfamas, pequena de espaço, imensa de calor humano, entram e saem copos, altos de whisky e gelo, médios de moscatel ou porto, pequenos de ginjinha com canela, caseira e saborosa ou água fresca, num vai e vem, dançando nas bandejas, atravessando as vielas pelas mesas feitas, entre “com licença” e “deixem passar”, animando as noites, dando vida ao espaço a às almas sequiosas de um refresco, de um afago, quem sabe do conforto de uma amizade, que sempre faz tão bem.

Do coreto reluzente, enfeitado de luzes multicores, brotam sons de uma guitarra dolente, de uma moda popular, de um fado bem castiço. Mais tarde, o jazz anima a festa e, por fim, lembrando aventuras e alguns tormentos, ouvem-se sons que lembram eventos e sonhos que alvoroçaram uma geração ainda presente.

Mesmo ao lado, uma feira do livro, mantendo a tradição, evocando velhos tempos, vendendo livros, enciclopédias de cultura, elevando as mentes. Passam transeuntes, comendo entremeada, às vezes, sai bifana, uma cervejita a acompanhar e um cheirinho a coiratos que faz as delícias dos amantes do real petisco. A noite é de fraco proveito. A crise é grande! Não há dinheiro para tanto. Mas há risos, abraços e beijos no encontro que o momento oferece. Há já tão pouco tempo! A vida tem sido aquela madrasta à qual não resta a não ser sobreviver aceitando o trabalho precário, quando há e um sorriso largo deixando expresso que a grandeza da alma humana há-de estar sempre presente.

Ao cimo a lua brilha num céu de azul profundo, abençoando as gentes.

 

Maria Carvalho

30 de Julho de 2009